segunda-feira, 21 de maio de 2012

A lenda do boneco Robert

Robert-the-Enchanted-Doll_photo_mediumConta a lenda que, em 1896, uma empregada insatisfeita, “praticante de voodoo”, resolveu dar um “presentinho” aos seus patrões.
A empregada deu ao filho de seus patrões, Robert Eugene Gene, um boneco “recheado de palha”, com cerca de 1m de altura. O boneco tinha “um rosto humanizado”, rapidamente se tonou adorado e amigo inseparável do menino, que o chamou de “Robert”.
O pai do menino ouvia constantemente o garoto falar com o boneco, o mais incomum é que uma voz diferente respondia.
Repentinamente coisas estranhas começaram a acontecer na casa. Vizinhos relatavam verem Robert “aparecer de janela em janela”, quando não havia ninguém em casa. Os pais do garoto ouviam risos do boneco e afirmavam verem o vulto dele correndo na casa.
Gene começou a ter pesadelos constantes e acordava gritando, mas quando seus pais chegavam no quarto encontravam tudo bagunçado, o garoto encolhido, com medo, e o boneco sentado aos pés da cama, enquanto Gene afirmava “Foi o Robert!”.
O boneco então foi trancado no sótão e lá permaneceu por anos. Após a morte dos pais, Gene encontrou o boneco e resolveu deixá-lo em seu quarto, o que trouxe mal estar a sua esposa. O boneco anda exercia muita influência sobre Gene.
Certo dia sua esposa, cansada do boneco, colocou-o no sótão novamente. Gene porém, ficou muito chateado, e exigiu que o boneco fosse colocado em frente a uma janela, para que pudesse ver a rua.
Dentro de pouco tempo, a sanidade de Gene começou a ser questionada e a história do boneco e suas maldades se espalharam por Key West. Pessoas começaram a afirmar que “viam o boneco na janela rindo de suas caras quando passavam na frente da casa”, as crianças evitavam passar por ali.
Gene contou certa vez que, ao entrar no quarto do boneco o encontrou na cadera de balanço, com raiva do quarto, fazendo com que Gene se enchesse de Robert. As pessoas que visitavam a casa afirmavam ouvirem passos no sótão e risadas muito estranhas, mas depois de certo tempo as visitas se acabaram.
A história do boneco “Robert” somente foi esquecida em 1972, quando Gene morreu e a casa foi vendida.
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Robert esperou quieto no sótão até o momento certo, quando foi redescoberto pela filha de 10 anos dos novos proprietários da casa.
Pouco tempo após ter encontrado o boneco, a menina começou a reclamar que Robert “a torturava e infernizava sua vida”. Mesmo após 30 anos, a menina continuava a afirmar que “o boneco estava vivo e que queria matá-la”.
Hoje Robert permanece trancado no Key West Martello Museum, vestido com a mesma “roupa branca de marinheiro”, mas funcionários do museu afirmam que “Robert ainda faz seus truuques nos dias de hoje”.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O lado negro: A Vida Moderna de Rocko




Em 1995, eu era um estagiário recém-contratado nos Estúdios de Animação da Nickelodeon. Tive a chance de trabalhar especialmente ao lado de Joe Murray, que foi o criador de um dos meus desenhos favoritos, A Vida Moderna de Rocko. Quando fiquei sabendo que eu assistiria os novos episódios antes que eles fossem ao ar, é claro que eu fiquei em êxtase. Ele conversou comigo sobre os planos para os próximos episódios da série, e me mostrou alguns esboços iniciais dos personagens que as crianças daquela época (incluindo eu, e certamente alguns pais) haviam vindo a conhecer e amar.

Os primeiros episódios exibidos eram ótimos, e eu sempre me gabava para os meus amigos, que também eram fãs da série. Mas um dia, as coisas pareciam um pouco fora do comum. Joe parecia exausto e rapidamente me entregou uma fita antes de ir para casa, alegando que estava doente. Curioso para ver o episódio que me aguardava, rapidamente coloquei a fita no videocassete, imaginando as confusões que Rocko e seus amigos iriam se meter desta vez. Mas quando o cartão de título apareceu, fiquei chocado, para dizer o mínimo. O cartão dizia "O Funeral de Felizberto", e havia uma imagem de Rocko e Vacão ajoelhados sobre o casco da amável e desastrada tartaruga. Sua casca tinha vários arranhões, e estava manchada de lama.

O episódio em si começou com Rocko sentado no sofá de sua sala, que estava estranhamente bagunçada e cheia de moscas. Spunky, seu cachorro, foi caminhando lentamente pela sala, parecendo muito mais magro do que o normal, latindo fracamente para Rocko. Não havia nenhum som, e ao invés das cores habituais e alegres, havia cores escuras excessivamente vivas espalhadas pela tela, dando um olhar mórbido e caótico ao cenário. O silêncio continuou até o episódio chegar a cerca de um minuto de duração, mas foi quebrado quando o telefone tocou.

"Olá?" Rocko perguntou em sua voz irritantemente monótona.

O som suave de uma outra voz pode ser ouvida na outra linha, e por um único quadro, uma imagem apareceu, mas desapareceu antes que eu pudesse dar uma boa olhada.

"Sim, eu entendi. Terça-feira as 15:00, certo", disse ele no mesmo tom antes de desligar o telefone. A câmera deu um zoom em seu rosto, mostrando detalhes perturbadores, e em seguida silenciosamente diz "Felizberto", antes de começar a chorar.

Rocko começou a gritar o nome Felizberto, seu tom de voz ficando cada vez mais alto com cada grito. Vacão entra na casa em seguida, com sua atitude normal e feliz.

"Hey, Rocko. O que-" Sua fala terminou de forma abrupta, e ele ficou olhando em silêncio para o rosto de Rocko por cerca de 30 segundos, e em seguida, diretamente para a câmera pelos próximos 30 segundos.

Rocko então friamente diz: " Felizberto morreu".

Vacão começa a ficar histérico, mas não de sua maneira comum e cartunistica. Ele parecia genuinamente triste, e ver isso estava me machucando ver isso; ver meus amados personagens favoritos naquela situação horrível.

A tela então ficou escura, e logo cortou para o interior de uma casa funerária. Todos os personagens estavam lá dentro, soluçando, os sons de todos eles enchendo a pequena sala. A câmera se aproxima para o rosto de Felizberto, morto e deitado dentro de um caixão azul com velas espalhadas em volta, e permanece assim durante o resto do vídeo.

Depois de ver isso, sentei-me em estado de choque por um momento antes de começar a me sentir mal, mentalmente e psicologicamente. Pelo que entendi, esse era para ser o episódio final da série, algo parecido com o que deveria ter acontecido com o final de Invasor Zim. Felizmente, este episódio acabou nunca indo ao ar, mas ainda assombra os meus sonhos até hoje.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O filme cancelado da Nickelodeon


Já parou pra pensar que quanto mais vezes você assiste um desenho da Nickelodeon, mais sombrio ele parece ficar? Bem, o que você verá é muito parecido com isso...

Um amigo meu trabalhava no estúdio. Eu nunca me lembrei do que ele fazia lá, mas eu me lembro de que ele trabalhou no estúdio por algum tempo. Isso foi na época em que Hey Arnold: O Filme foi lançado, e ele me disse que depois do filme, a Nickelodeon planejava fazer três coisas:

- Uma nova temporada de Hey Arnold com um enredo mais atualizado e que não haveria conexão com a série original (CANCELADO).

- Uma nova série em live-action que se passava em 1990, com um estilo bastante sombrio (parecido com “Clube do Terror”) sobre crianças que viviam em um beco sem saída (CANCELADO)

- Um filme de TV baseado na série em live-action cancelada.

Bem, enquanto as duas séries foram canceladas, o filme permaneceu nos projetos. Eles queriam voltar para a década de 90 com este filme, e teriam conseguido. Meu amigo me contou sobre a contratação de escritores de seriados infantis e sombrios para escreverem o filme, intitulado "Grimland". Aparentemente, havia uma disputa entre vários escritores, levando a execução do projeto. Ele me disse que teve a chance de ver como era a produção. Gravei algumas partes de nossa conversa, porque seu estado parecia piorar desde que ele mencionara o filme pra mim pela primeira vez:

“O filme ’Grimland' se tratava sobre a década de 1990 e sobre as merdas assustadoras que haviam na TV naquela época. Eu me opus à idéia da nova temporada/reinicio de Hey Arnold, porque o plano era colocar os personagens em temas mais adultos... Os avós de Arnold teriam morrido depois do filme, fazendo com que Arnold tivesse problemas em sua vida. Helga se torna extremamente obcecada com Arnold ao ponto onde, no primeiro episódio, ela se enxerga pesadamente grávida com o filho de Arnold (ela vê um bebê com uma cabeça de futebol em forma de uma sonografia, onde no final da 1ª temporada, ela teria o bebê.). Isso se tornaria uma espécie de ‘piada recorrente', onde Helga desfrutaria cada momento de sua suposta ‘gravidez’, esfregando-a na cara de Arnold e tentando forçá-lo a se casar com ela por causa do bebê, para o que ele se recusava. Ela esfregaria constantemente sua barriga, perseguindo-o profusamente, ao contrário do medalhão com sua foto como na série original. Segundo o script, ela diria em um ponto dos episódios: ‘Devido às suas ações descuidadas, agora tenho um pedaço de você dentro de mim’. Gerald iria juntar-se a um grupo de pessoas para trabalharem intensamente na produção da série. Esta série nunca seria direcionada para crianças, devido não só às mudanças de personagens (especialmente com a gravidez de Helga), mas também ao fato de que haveriam temas mais adultos para a série, incluindo indicações do Sr. Simmons ser homossexual, Curly (o psicopata da escola) matando animais, lesbianismo, intercursos sexuais, e tantos outros. Fico muito aliviado pelos executivos nunca colocarem-na no ar..."

Depois de um tempo, fiquei curioso. Perguntei a ele sobre a segunda série, e ele me disse: "Não deu em nada. Bem... Isso é uma mentira. Eles a transformaram em um filme". Isso me intrigou bastante. Perguntei se o filme chegou a ir ao ar: "Nem pensar! Quero dizer, o filme havia sido gravado, editado e tudo mais, mas há uma GRANDE RAZÃO dessa porra nunca ter ido ao ar!". Seu argumento deixou bem claro para mim que alguma merda muito estranha havia acontecido. Notei que seu rosto estava muito pálido, então lhe aconselhei para ir pra casa dormir um pouco. Recebi um email dele recentemente, e decidi incluí-lo aqui, já que o email é bem relevante.

"Ei cara, eu não tive um pingo de sono ontem. Todas essas memórias começaram a se infiltrar em meus sonhos. Eu quero deixar bem claro que sim, eu vou te dizer tudo o que posso te dizer, mas há um ponto onde toda essa merda termina, cara! Falo com você mais tarde. Preciso tentar dormir um pouco..."

"O que posso te dizer sobre 'Grimland’? Bem, primeiro havia a equipe de roteiristas. Todos eram anfitriões de seriados obscuros e desconhecidos, o que era estranho para uma rede como a Nickelodeon contratar cerca de 10 ou 11 deles para um filme. Outra coisa eram as idéias que eles tinham. Quais foram as idéias? Bem, vamos ver, em primeiro lugar a abertura era completamente maluca. Tudo começou com duas crianças em uma noite de Outono de luar (nevoeiro pesado e tudo mais, e algumas coisas irreconhecíveis no meio do nevoeiro) correndo pelas ruas de uma cidade. Um tropeça e cai, e pede para seu amigo ajudá-lo. Há uma cena do filho da puta sendo arrastado por alguma coisa, gritando, já que seu amigo imbecil ficara um bom tempo contemplando-o sem fazer absolutamente nada para ajudar. Em seguida, um barulho de carne sendo rasgada e amassada pode ser ouvido, e os gritos pararam, como se alguém estivesse comendo o garoto vivo. Em seguida, o outro garoto sai andando, e o título do filme aparece. O que diabos eles estavam pensando quando fizeram aquilo?! Bem, eles acabaram usando ESSA abertura, mas o script fora um pouco alterado. Uma dessas alterações era que o personagem principal era um adolescente de 13 anos com um pai abusivo, e o outro, um adolescente de 16 anos solitário, sem família nenhuma. Agora havia conflito, mas alguns dos roteiristas tinham algumas idéias e indicações muito boas. E então as coisas ficaram esquisitas, como a explicação da importância do nevoeiro pesado da abertura, mas isso nunca chegou muito longe a ponto de passar. Bem, havia algumas lutas, alguns chingamentos do tipo 'Foda-se’, e mais algumas coisas tão mínimas e bizarras que não me recordo mais. O resto, em ‘memória dos escritores falecidos’, usava alguns personagens como referencia. O script explicava que o pai do garoto de 13 anos havia abusado sexualmente de uma garota, fazendo com que ela se convertesse para a bruxaria. O garoto solitário teria uma relação com uma das personagens (a menina bruxa, pra ser mais exato), engravidando-a por estupro em uma cena mais ou menos na metade do filme, resultando no garoto acabar com os miolos espalhados no chão, por meio de um suicídio forçado. Havia contagens elevadas de sangue, mutilação, sadismo, essas merdas em todo o lugar! E o maldito executive PERMITIU que essa merda passasse!"

Depois de um tempo, eu lhe disse que deveriamos parar e mudar de assunto. Ele disse, e eu tenho quase certeza que gravei isso na fita; ele disse que: "Eles queriam MATAR todas as crianças! As coisas que não podiam ser vistas no meio do nevoeiro na abertura, eram canibais hipnotizados por aquela filha da puta. Todos eles foram descritos em detalhes gráficos, cada cena, cada personagem, TUDO! E o dia em que as filmagens começaram ainda me assombram..."

"Bem, no início das filmagens, eles escolheram os papéis PERFEITAMENTE! A cena de abertura foi gravada em meados do final de Novembro. A produção era um show de horror. Quero dizer, merdas bastante gráficas. Mas você quer saber o que era mais assustador? Eles gravaram uma cena onde a garota bruxa, de seis anos de idade, é obrigada a ver seu próprio pai tirar suas roupas e molestá-la. Eles basicamente gravaram uma cena de pornografia infantile, de pedofilia, para um filme da Nickelodeon! O executivo ficou sabendo disso e imediatamente exigiu que a cena não fosse usada. O diretor ficou puto, e ele queria vingança… Ele fez com que o pessoal gravasse umas cenas violentas pra caralho, cara. As mortes descritas no script já eram horriveis, mas quando elas puderam ser VISTAS, fiquei tão enojado com as cenas que eu praticamente vomitei. No dia seguinte, dei o fora daquele lugar do caralho. "

Isso aconteceu a alguns meses atrás. Quando eu perguntei a ele sobre o filme, ele disse: "Provavelmente está em algum lugar no meio dos arquivos. Que Deus tenha piedade da alma daquelas pessoas..." Mas uma coisa que ele se lembra perfeitamente é a cena do suicídio forçado, a cena que não foi “encenada”. Perguntei aos estudios da Nick sobre este filme, e eles basicaente me expulsaram de lá.

Meu amigo se matou alguns dias depois; sua carta de suicidio afirmava que os sonhos estavam ficando cada vez piores, e isso estavam acabando com seu sono cada vez mais. Ele não conseguia mais lidar com aquilo, e só disse no final da carta que amava sua mãe acima de tudo. Ele se enforcou em uma árvore de seu quintal. Em sua memória, eu quero encontrar esse filme, qualquer que seja a maldição e os pesadelos que o filme pregou nele, parecem ter chegado a mim. Estou determinado a encontrar este filme, nem que ele me leve para o túmulo...

terça-feira, 15 de maio de 2012

Lua Pálida


Na última década, tornou-se muito fácil conseguir o que se quer, através de só alguns cliques. A internet fez tudo simples demais, e qualquer um pode usar um computador e alterar a realidade. Uma abundância de informação está meramente a um clique de distância, ao ponto em que é impossível imaginar a vida sendo diferente.

Ainda assim, uma geração atrás, quando as palavras "streaming"(fluxo) ou "torrent"(torrente) não tinha sentido, a não ser que fossem ditas em uma conversa sobre água, as pessoas precisavam se encontrar cara a cara para trocar softwares, programas,jogos de cartas e cartuchos.

É claro que a maioria desses encontros eram entre grupos de pessoas que trocavam jogos populares entre si como King's Quest ou Maniac Mansion. Entretanto, pouquíssimos programadores conseguiam fazer seus próprios jogos para dividir entre esses círculos, que em troca passariam o jogo adiante se fosse divertido, bem desenhado e independente o suficiente. Esses jogos tinham fama de serem raros artefatos buscados por colecionadores pelo país todo. Era o equivalente a um vídeo viral nos anos 80.
 
Lua Pálida entretanto nunca havia saído da área da baia de São Francisco. Todas as cópias conhecidas estavam por lá. Todos os computadores que já tinham usado o jogo eram de lá. Esse fato se dá pelo seu programador ter feito pouquíssimas cópias.

Lua Pálida era um jogo "texto-aventura" no estilo Zork e The Lurking Horror, foi feito na exata época em que esse estilo estava saindo de moda. Ao iniciar o programa, o jogador era apresentado a uma tela quase vazia, exceto pelo texto:

-Você está em uma sala escura. Luz do luar brilha pela janela.

-Há OURO no canto, junto a uma PÁ e uma CORDA.

-Há uma PORTA para o LESTE.

-Comando?

Então começa o jogo que certa vez um escritor de uma fanzine descreveu como "enigmático, sem sentido, e totalmente injogável". Ao que o jogo só apresentava os comandos PEGAR OURO, PEGAR PÁ, PEGAR CORDA, ABRIR PORTA, IR AO LESTE, o jogador recebia as seguintes instruções:

-Pegue sua recompensa.

-LUA PÁLIDA SORRI PARA VOCÊ.

-Você está na floresta. Existem três caminhos. NORTE, OESTE e LESTE.

-Comando?

O que rapidamente frustrou os poucos que jogaram o jogo foi o confuso e tiltado comportamento da segunda fase em diante - somente um dos comandos direcionais era o certo. Por exemplo, nessa ocasião, o comando para ir em qualquer direção que não fosse o NORTE faria o sistema congelar, fazendo obrigatório a reinicialização do computador.

Adiante, qualquer fase subsequente era tão somente uma repetição dos comandos anteriores, excetuando que eram somente as opções de direção que estavam disponíveis. Ainda pior, os comandos clássicos de qualquer jogo de texto-aventura pareciam inúteis. A única ação aceita que não envolvia movimentos era USAR OURO, que ocasionava o jogo a mostrar a seguinte mensagem:

-Não aqui.

USAR PÁ, que mostrava:

-Não agora.

E também USAR CORDA, que fazia surgir o texto:

-Você já usou isso.

A maior parte de todos que jogaram o jogo avançaram algumas fases até se enfastiarem com o fato de precisarem re-iniciar o computador o tempo todo e jogar o disco longe, descrevendo a experiência como uma interface porcamente programada. Entretanto, há uma verdade sobre o mundo dos computadores que é imutável, em qualquer Era: algumas pessoas que usam sempre vão ter muito tempo livre a sua disposição.

Um jovem rapaz chamado Michael Nevins decidiu descobrir se havia mais Lua Pálida do que podia se ver a olho nu. Após cinco horas e trinta e três fases de tentativas e muitos cabos de computador desconectados, ele finalmente conseguiu fazer o jogo mostrar um texto diferente. O texto na nova área era:

-LUA PÁLIDA SORRI ABERTAMENTE.

-Não há caminhos.

-LUA PÁLIDA SORRI ABERTAMENTE.

-O chão é macio.

-LUA PÁLIDA SORRI ABERTAMENTE.

-Aqui.

-Comando?

Passou-se quase outra hora até que Nevins tropeçasse na combinação apropriada de frases que fariam com que o jogo prosseguisse; CAVAR BURACO, DESCARTAR OURO, então TAMPAR BURACO. Isso fazia com que a tela mostrasse:

-Parabéns

----40.24248----

---- -121.4434----

Ao que o jogo cessava de receber comandos e fazia o jogador ter de re-iniciar o computador uma última vez.

Após alguma deliberação, Nevins chegou a conclusão que os números referiam-se a linhas de latitude e longitude --- as coordenadas levavam a um ponto na floresta crescente que dominava as adjacências próximas a o Parque Vulcânico Lassen. Como ele tinha muito mais tempo do que noção do perigo, decidiu ir ver o fim de Lua Pálida.

No dia seguinte, armado de um mapa, um compasso e uma pá, ele andou pelas trilhas do parque, percebendo impressionado como cada curva que ele fazia era exatamente igual as curvas do jogo. Após ter inicialmente se arrependido de ter trazido a ferramenta de escavação como que por puro instinto, ele acabou se convencendo de que sua jornada que tinha uma semelhança incrível com a do jogo poderia levá-lo a encontrar um excêntrico tesouro enterrado.

Sem fôlego após muita caminhada em busca das coordenadas, surpreendeu-se ao literalmente tropeçar em um monte de terra revirada. Cavando tão animado como ele estava, é de se entender o jeito como ele se jogou para trás em surpresa quando seus esforços o levaram a se deparar com uma cabeça em início de decomposição de uma menininha loira.

Nevin prontamente passou as informações para as autoridades. A garota foi identificada como Karen Paulsen, onze anos, dada como perdida para o Departamento de Polícia de São Diego a mais ou menos um ano e meio.

Esforços foram feitos para se encontrar o programador de Lua Pálida, mas os rastros da comunidade de troca de jogos e programas se perdiam e sempre acabavam de volta ao ponto de partida.

Colecionadores chegaram a oferecer mais de 6 mil dólares em uma cópia do jogo.

O resto do corpo de Karen nunca foi achado.

sábado, 12 de maio de 2012

The Rake


Durante o verão de 2003, eventos no nordeste dos EUA envolvendo uma estranha criatura humanoide apareceu na mídia local antes de um grande apagão. Pouca ou nenhuma informação foi deixada intacta, e a maioria das informações na Internet sobre a criatura foi destruída misteriosamente.

Ela aconteceu primeiramente na parte rural do estado de nova York, auto proclamadas testemunhas contaram suas historias sobre seus encontros com a criatura de origem desconhecida. Alguns estavam TERRIVELMENTE AMEDRONTADOS enquanto outros tinham uma curiosidade que somente era encontrada em crianças. Seus depoimentos não estão mais disponíveis, porem muitas pessoas envolvidas ainda procuram respostas sobre o Rake e sobre os acontecimentos daquele ano.


No inicio de 2006, ao final da investigação encontraram quase 2 dúzias de documentos entre os séculos 12 e hoje em dia, em 4 continentes. Em quase todos os casos as historia era praticamente idêntica. Eu estive em contato com um membro do grupo de investigação e fui capaz de obter algumas partes de seu livro que será lançado brevemente

Nota de suicídio: 1964

"Enquanto me preparo para tirar minha própria vida, sinto que é necessário escrever para amenizar a dor e a culpa que sinto. Não é culpa de ninguém alem dele. Assim que acordei eu senti sua presença. E assim que acordei eu vi sua forma. Uma vez que acordei novamente eu escutei sua voz, e olhei em seus olhos. Eu não posso dormir sem medo da próxima experiência que terei quando acordar. Eu nunca mais posso acordar. Adeus."


Foi encontrado uma caixa de madeira onde haviam 2 envelopes vazios adereçados a William e Rose, e uma carta pessoal sem envelope:

"Querida Linnie,

Eu tenho rezado por você. Ele falou seu Nome."

Trecho de um jornal (traduzido do espanhol): 1880

"Eu experimentei o maior TERROR. Eu experimentei o maior TERROR. Eu experimentei o maior TERROR. Eu vejo seus olhos quando fecho os meus. Eles são vazios. Negros. Eles me viram. Sua mão molhada. Eu não vou dormir. Sua voz...(parte ilegível)"

Diário do capitão: 1691

"Ele veio a mim durante meu sono. Do pé da minha cama eu tive uma sensação. Nos devemos voltar para a Inglaterra. Nos não devemos voltar aqui a pedido do RAKE."

Depoimento de uma testemunha: 2006

"Três anos atrás, eu havia retornado de uma viagem até as cataratas do Niágara com minha família no 4 de julho. Nos estávamos todos exaustos apos um longo dia dirigindo, então meu marido e eu pusemos as crianças direto para a cama.

Por volta das 4 da manha, eu acordei achando que meu marido acordara para usar o banheiro. Nesse momento me levantei e o acordei no processo. Me desculpei e disse a ele que eu pensava que ele havia saído da cama. Quando ele se virou para mim, ele ofegou e puxou seus pés do fim da cama tão rápido que quase me derrubou da cama. Ele me agarrou e nada disse.
Quando meus olhos se acostumaram ao escuro, eu fui capaz de ver o que causou essa reação nele. No pé da cama, sentado e nos olhando, estava o que parecia um homem pelado, ou um grande cachorro sem pelo. Seu corpo estava contorcido de um jeito perturbador e desnatural, como se ele tivesse sido atropelado ou coisa parecida. Por alguma razão eu nao estava instantaneamente com medo dele, mas com pena de sua condição. A essa altura eu estava achando que nós deveríamos ajudá-lo

Meu marido estava em posição fetal, ocasionalmente olhando para mim e depois para a criatura

Em um movimento agitado a criatura cambaleou em volta da cama, chegando a ficar a uma distancia de 1 pé de meu marido. A criatura estava completamente silenciosa por uns 30 segundos (ou talvez uns 5 segundos, mas pareceu 30) olhando para meu marido. A criatura pôs sua mão em seu joelho e correu em direção ao corredor, indo em direção ao quarto das crianças. Eu gritei e corri para o interruptor, planejando pará-lo antes que ele machucasse as crianças. Quando cheguei no corredor a luz do quarto era o bastante para vê-lo a uns 20 pés de distancia. Ele se virou para mim e me olhou diretamente, coberto de sangue. Eu liguei a luz do corredor e vi minha filha Clara em suas presas.

A criatura descia as escadas enquanto eu e meu marido corríamos desesperadamente para salvar nossa filha. Vendo que não escaparia carregando o peso de nossa filha, ele a deixou e fugiu. Ela estava gravemente ferida e disse somente uma frase em sua pequena vida. Ela disse: "Ele é o RAKE".

Meu marido caiu no lago enquanto levava nossa filha ao hospital. Ele não sobreviveu.

Como era uma cidade pequena, a noticia se espalhou rapidamente. A policia foi de grande ajuda no começo, e o jornal local ficou bastante interessado também. Entretanto, a historia nunca foi publicada, e a TV local nunca mostrou a notícia.

Por vários meses, eu e meu filho Justin ficamos em um hotel perto da casa dos meus pais. Depois de decidir voltar para casa, comecei a procurar respostas sozinha. Eventualmente encontrei um homem na cidade seguinte que tinha uma historia parecida com a minha. Nos nos contatamos e começamos a falar sobre nossas experiências. Ele conhecia mais 2 outras pessoas em nova York que haviam visto a criatura chamada de RAKE.

Todos nós precisamos de 2 anos de procura de material na Internet e cartas para conseguir juntar uma pequena porção do que acreditávamos ser aparições do RAKE. Nenhuma das informações nos deu nenhum detalhe, história ou pista. Um jornal tinha um artigo falando sobre ele nas 3 primeiras paginas, mas depois disso, nunca mais o mencionaram de novo. Um diário de capitão não explicou nada sobre o encontro, apenas falando que o RAKE mandou eles irem embora. Aquela era a ultima parte do diário.

Nós descobrimos, entretanto que a criatura visita a pessoa VARIAS vezes. Ele também se comunicava com varias pessoas, incluindo minha filha. Isso nos levou a pensar se o RAKE havia nos visitado alguma vez desde nosso ultimo encontro.

Eu pus um gravador do lado da minha cama e o deixei gravando enquanto dormia, todas as noites, por 2 semanas. Checava todos os sons do meu quarto, de mim rolando na cama, todo dia que eu acordava. No final da ultima semana, eu já estava meio que acostumada com o som que eu fazia enquanto dormia, até que escutei o mesmo som, só que 8 vezes mais rápido que o normal (Ainda era quase 1:00).

No primeiro dia da 3º semana, pensei ter escutado algo diferente. O que eu ouvi era uma voz estridente... Era o RAKE. Não consigo escutar aquilo tempo o bastante para descrevê-la, e ainda não deixei ninguém escutar a gravação. Tudo que eu sei é que já escutei isso antes, e acredito que era exatamente o que falava enquanto estava ao lado de meu marido. Eu não me lembro de escutar nada na hora, mas por alguma razão, a voz no gravador automaticamente me lembra aquele momento.

Os pensamentos que devem ter passado pela mente de minha filha naquela noite me deixam muito frustrada.

Eu não vi mais o RAKE desde que ele arruinou a minha vida, mas sei que ele está no meu quarto enquanto eu durmo. E temo que uma noite eu acordarei e verei ele me observando."


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Você não é perfeito


Olá. Eu amo Coragem, o cão covarde, então gravei o meu episódio favorito, o nome  do episódio é "Perfeito", gravei porque me divertia muito vendo ele. Eu sabia que tinha um personagem chamado Cara Azul que aparecia em um sonho de Coragem, mas eu pulava essa parte quando era criança, com um friozinho no estômago. Agora  eu encontrei a fita e estava assistindo, quando me lembrei disso, e decidi assistir a parte do Cara Azul. Quando a cena entrou no sonho de Coragem, tudo entrou em negativo, inclusive o Cara azul, ficando vermelho. O áudio travou muito e eu realmente não conseguia entender nada além de barulhos e uns ganidos de Coragem em algo parecido com uma música rápida.

Rebobinei a fita, e vi um flash de algo estranho, resolvi checar  o que era e era bem estranho. Era Muriel, dona de Coragem, sendo esfaqueada por Eustácio. Dei play a partir dai e ouvi "MULHER IDIOTA, FEZ EU FICAR FEIO!".

O mesmo gelo no estômago  que me tomava quando criança e ia até minha coluna vertebral  voltou agora, não lembrava dessa cena, era do tipo assustadora demais para minha memória seletiva de criança querer guardar.  Recentemente vi  o episódio  "Perfeito" na  Cartoon, e a parte onde Eustácio esfaqueava Muriel era quase a mesma, exceto que Eustácio não esfaqueava ela, ele só gritava.  De algum modo doeu em mim, confundir memórias e pensar em violência doméstica em um desenho que gostava tanto... e nunca tinha notado... Apaguei a fita e coloquei para rodar, para garantir que havia sido apagada. Não havia.

A parte "Você não é perfeito" estava passando, repetidamente, a parte onde Esutácio esfaqueia  Muriel. Ouvi  "MULHER IDIOTA , FEZ EU FICAR FEIO" de novo. A  fita continuou rodando em frente, mas não saía dessa cena. Até que houve uma extensão. Eustácio, após esfaquear Muriel, ficou parado por 10 segundos e Coragem começou a gritar por ajuda... ao menos ouvia a voz dele gritando, e Eustácio dizendo: CACHORRO IDIOTA, VOCÊ TOCOU O MEU--" o áudio terminou e Eustácio fez uma cara horrível, um flash de segundos de Coragem morto apareceu, como uma mensagem subliminar, mas, sim,  pude ver claramente. No estilo do desenho, Coragem aberto no estômago e Eustácio explodindo em ódio. Então a fita parou.

Ouvi sons de interferência magnética e grunhidos de alguma criatura sofrendo, e então o Cara Azul na tela, com uma  voz de criança ao fundo da agonia disse: "Você não é perfeito". A voz era de uma suavidade que gerava pena e muito medo ao mesmo tempo.

Arranquei a fita e desliguei meu VHS, sai de casa para jogá-la no lixo, fecho a porta do meu apartamento e ao me virar, no canto extremo do corredor, no alto, como sujeira ou mofo, se desfazendo, alguma coisa azul gemia com voz de criança. Fechei os olhos e abri. Continuava lá. E agora fedia, fedia a líquido de lixo,chorume. Fechei e abri de novo, e o som do gemido estava mais borbulhante.  Me tranquei no meu apartamento e na minha tv estava a mesma imagem, a mesma voz, o mesmo cheiro.

Escrevo isso agora, dias após o acontecido, pois não parou ainda, e o inferno é aqui. A coisa continua na minha tv e no corredor, e agora está na minha cama e no banheiro também, e com muitos braços. Estou  para morrer de fome, sujo de detritos  humanos e louco. Sei que estou louco. Prefiro me matar. Quem quer que seja que ache esse papel, por favor, faça-o ir a público.

Apenas se lembre, você não é, nunca foi,  nem nunca vai ser perfeito.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Psicose

Bem, vim aqui me desculpar por não ter postado ontem. Estava com o tempo muito curto devido ao meu trabalho e essa creppy exigiu um esforço a mais para ser traduzida, fora o fato de ser relativamente grande. Mas enfim, posto hoje, peço-lhes desculpas por ontem e lhes faço um apelo: Esta creppy é grande, mas, leiam-a, por favor. Vale muitíssimo a pena, e é uma das melhores que já li. Bom, no mais, é isso. Espero que gostem dela, foi  um prazer traduzir.


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Domingo

Não tenho certeza do porque estou escrevendo isso em papel e não no meu computador. Eu acho que é só porque eu tenho percebido algumas coisas estranhas. Não que eu não confie em meu computador, é só que... eu só preciso organizar meus pensamentos, preciso juntar os detalhes em algo sólido, que não possa ser deletado ou mudado... não que isso tenha acontecido. É só que... tudo se turva junto em minha cabeça quando não me concentro, e a memória esfumaçada cria uma estranha sensação às coisas.

Começo a me sentir limitado nesse pequeno apartamento. Talvez esse seja o problema. Eu só precisava escolher o apartamento mais barato e encontrei esse no porão. A falta de janelas aqui em baixo faz com que dia e noite mudem sem que eu perceba. Não tenho saído de casa faz dias por estar trabalhando nesse projeto de programação tão intensamente. Suponho que eu só queira terminar logo. Horas e horas sentado e olhando para o monitor pode fazer qualquer um se sentir estranho, eu  sei, mas  eu acho que não é isso.

Não tenho certeza de quando comecei a achar que havia algo de errado. Não consigo sequer definir o que é, ou talvez eu só não tenha falado com alguém em um bom tempo. Essa foi a primeira coisa que me alertou. Todos com quem eu costumava conversar online parecem muito ociosos de sua vida virtual, ou simplesmente não logavam mais. Minhas mensagens instantâneas não tinham resposta e o último e-mail que eu consegui de alguém era de um amigo dizendo que falaria comigo assim que voltasse da loja, e isso foi ontem. Eu ligaria pra ele do meu celular, mas o sinal aqui em baixo é horrível. Sim, é isso. Só preciso ligar para alguém. Eu vou lá fora.

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Bem, não deu muito certo também. Ao que o mais fino fio de medo se desfaz, me sinto um  pouco ridículo por estar assustado. Olhei no espelho antes de sair, mas não fiz a barba de dois dias que deixei crescer. Só iria sair pra uma rápida ligação. Troquei de camisa, pelo menos, porque era hora do almoço, e imaginei que encontraria alguém que eu conhecesse. Isso também não aconteceu. Queria que houvesse.

Quando saí, abri a porta de metal que dá para meu apartamento lentamente. Uma pequena sensação de apreensão tinha de algum jeito entrado em mim, por alguma razão indefinida. Eu considerei-a devido ao fato de não ter tido uma conversa com ninguém além de mim mesmo a um ou dois dias. Olhei pelo corredor cinza e sujo, ainda mais sujo por ser um corredor de porão. Em uma das extremidades, havia uma porta de metal que levava até a fornalha do prédio. Estava trancada, naturalmente. Duas séquidas máquinas de refrigerante estavam ao lado. No dia em que vim morar aqui, comprei uma soda de uma delas, mas senhoria era preguiçosa demais para mandar recarregá-las e eu só consegui perder uma moeda. Sequer sei se alguém sabe da existência dessas máquinas aqui em baixo.

Fechei minha porta suavemente e fui para o lado oposto, tomando cuidado para não fazer barulho algum. Não sei porque decidi fazer isso, mas era divertido me deixar levar pelo impulso de não quebrar o ritmo do zumbido das máquinas de refrigerante, pelo menos naquele momento. Cheguei até a escadaria e subi até a porta de frente do prédio. Eu olhei através da pequena janela da pesada porta, e fiquei chocado ao perceber que não era hora do almoço. Aquele brilho de cidade flutuava pela rua escurecida lá fora, e as luzes do tráfego na curva lá longe brilhavam amarelas e vermelhas. Nuvens sujas, roxas e pretas do brilho da cidade se penduravam acima. Nada se mexia, salvo algumas árvores na calçada que se sacudiam com o vento. Eu ouvia-o vagamente pela espessa porta de aço, e sabia que era aquele tipo único de vento noturno, aquele tipo constante, frio, quieto, fora do ritmo constante que ele fazia ao passar pelas incontáveis folhas das árvores.

Decidi não sair.

Em vez disso, peguei meu celular e chequei o sinal. As barras estavam todas cheias, e eu sorri. Hora de ouvir a voz de alguém, lembro-me de ter pensado aliviado. Era algo tão estranho, sentir medo de nada. Balancei minha cabeça, rindo para mim mesmo silenciosamente. Segurei a tecla de atalho para ligar para minha melhor amiga Amy, e mantive o celular contra meu ouvido. Chamou uma vez... então parou. Nada aconteceu. Ouvi silêncio por uns bons vinte segundos, até que a chamada foi encerrada. Franzi o cenho e olhei para a barra de sinal de novo e... ainda estava cheia. Ia ligar de novo quando o celular tocou na minha mão, me assustando. Levei-o ao ouvido.

"Alô," disse claramente uma voz masculina, obviamente jovem, como eu. "Quem é?"

"John," Eu respondi, confuso.

"Oh, me desculpe, número errado,", ele respondeu, e desligou.

Abaixei o telefone e lentamente me encostei na dura parede de tijolos da escadaria. Aquilo tinha sido estranho. Eu olhei nas chamadas recebidas e percebi que era um número desconhecido. Antes que pudesse pensar melhor nisso, o celular tocou de novo, me dando um baita susto outra vez. Dessa vez, olhei o número antes de atender e era outro número desconhecido. Dessa vez, segurei o celular no meu ouvido e não falei nada. Ouvi tão somente o barulho de fundo comum que os celulares fazem. Então, uma voz familiar quebrou minha tensão.

"John?" foi a única palavra, na voz de Amy.

Suspirei em alívio.

"Ei, é você," respondi.

"Quem mais seria?" ela respondeu. "Ah, o número. Estou em uma festa na Sétima Rua, e meu celular morreu quando você me ligou. Esse é o celular de outra pessoa, obviamente."

"Ah, ok," eu disse.

"Onde você está?" ela perguntou.

Meus olhos passaram por cima dos monótonos blocos cilíndricos e brancos e da porta de metal com sua pequena janela.

"No meu prédio," suspirei. "Só me sentindo meio engaiolado. Nem sabia que era tão tarde."

"Você deveria vir aqui," disse ela, rindo.

"Não... não me sinto disposto a procurar sozinho por um lugar desconhecido no meio da noite," Eu disse, olhando pela janela para a silenciosa rua que secretamente me assustou só um pouquinho. "Acho que só vou continuar trabalhando ou vou pra cama."

"Inaceitável!" ela replicou. "Eu posso ir te buscar! Você mora perto da Sétima Rua, certo?"

"Você tá tão bêbada assim?" disse eu despreocupado. "Você sabe onde eu moro."

"Ah, é claro," ela disse abruptamente. "Acho que posso chegar ai andando né?"

"Claro que pode se quiser gastar uma meia hora," disse a ela.

"Beleza," ela disse. "Ok, tenho que ir, boa sorte com seu trabalho!"

Abaixei o celular outra vez, olhando o monitor clarear conforme a chamada era encerrada. Então o silêncio inquestionável voltou aos meus ouvidos. Os dois números desconhecidos e a exótica rua lá fora deram vazão à minha solidão nessa vazia escadaria. Talvez por ter visto muitos filmes de terror, de repente tive a inexplicável ideia de que algo poderia olhar pela janela e me ver, algum tipo de entidade terrível que flutuava na extremidade da solidão, só esperando o momento de assustar inesperadamente pessoas que se mantivessem muito tempo fora de contato com outros humanos. Eu sabia que o medo era irracional, mas ninguém mais estava por ali, então... corri escadas a baixo e corredor a dentro até fechar a porta do meu porão atrás de mim, tudo no mais suave silêncio que pude manter. Como eu disse, me sinto ridículo por estar assustado com nada, e o medo já se foi. Escrever isso aqui ajuda bastante, faz com que eu perceba que nada está errado. Filtra pensamentos meio-formados e medos e deixa somente frios e realísticos fatos. É tarde, recebi uma ligação de um número desconhecido, o celular da Amy morreu então ela me ligou de outro número. Nada de estranho está acontecendo.

Ainda, há algo de errado com aquela conversa. Sei que pode só ter sido o álcool que ela ingeriu mas, ou será que ela só pareceu estranha para mim? Ou será... sim, é, é isso! Eu não tinha percebido isso até escrever aqui, escrever realmente está ajudando. Sabia que escrever ajudaria. Ela disse que estava em uma festa, mas eu não pude ouvir nenhum barulho de fundo! Claro, isso  não quer dizer nada em particular. Ela podia ter ido para fora para falar comigo. Não... também não podia ter sido isso... eu teria escutado o vento soprar. Preciso ver se o vento ainda sopra lá fora!

Segunda-Feira

Esqueci de terminar de escrever ontem a noite. Não tenho certeza do que esperava ver quando corri até lá em cima da escadaria e olhei pela janela da porta de aço. Me sinto ridículo. O medo da noite passada me parece nebuloso e sem sentido para mim agora. Mal posso esperar para sair ao sol de novo. Vou checar meu e-mail, me barbear, tomar um banho, e finalmente sair! Espera... Acho que ouvi algo.

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Foi um raio. Toda aquela coisa de luz do sol e vento fresco não aconteceu. Subi a escadaria e só  encontrei desapontamento. A pequena janela da porta de aço só mostrou água corrente, ao que a chuva torrencial batia contra ela. Apenas uma luz muito fraca e suja era filtrada através da chuva, mas ao menos eu sabia que era dia, mesmo que cinza, doentio e encharcado. Tentei olhar pela janela esperando um raio para poder ver a rua, mas a chuva estava tão pesada que eu não conseguia ver nada além de vagas formas se movendo em ângulos estranhos nas ondas que lavavam a janela. Desapontado, me voltei para as escadas, mas não queria voltar para meu quarto. Ao invés disso, subi as escadarias passando o primeiro e o segundo andar. As escadas acabavam no terceiro andar, o mais alto do prédio. Olhei através do vidro que estava em uma das paredes mas não era uma janela, era aquele tipo de vidro grosso, fosco, que só permite que a luz passe,  não se conseguia ver nada além de cores. Nesse caso, cinza.

Abri a porta da escadaria e entrei no corredor do terceiro andar. As mais ou menos dez portas de madeira dura, pintadas algum dia do passado de azul, estavam todas fechadas. Escutei, conforme andava, mas estava no meio do dia, então não me surpreendi em não ouvir nada além da chuva lá  fora. Ao que me postei lá parado no corredor sujo, ouvindo a chuva, tive a estranha sensação de que as portas estavam ali como silenciosos monólitos de granito erguidos por alguma antiga e esquecida civilização por algum insondável motivo de proteção. Um relâmpago clareou os céus, e, por um momento, pude jurar que a velha e apodrecida madeira pareceu muito pedra rude. Ri de minhas suposições e de ter deixado minha imaginação tirar o melhor de mim, mas então me ocorreu que o brilho sujo e os trovões deveriam significar que havia uma janela em algum lugar no corredor. Uma vaga memória emergiu, e eu de repente me lembrei que o terceiro andar tinha  uma alcova e que havia uma janela embutida na metade do corredor do andar.

Animado em olhar para a chuva e possivelmente ver outro ser humano, rapidamente andei até a alcova, achando uma enorme janela de vidro. A chuva lavava ela, assim como a janela da porta da frente, mas eu poderia abrir essa. Coloquei minha mão do lado e deslizei ela para que abrisse, mas hesitei. Tive a péssima sensação de que se abrisse aquela janela, veria algo horrível do outro lado, e que me arrependeria profundamente. Tudo tem estado tão estranho ultimamente... então criei um plano, e voltei com o que eu precisava. Eu realmente não acho que vá resultar em algo, mas eu estou entediado, está chovendo e eu não vou surtar até enlouquecer quieto. Voltei pra pegar minha webcam. O fio não é tão grande assim a ponto de chegar para chegar ao terceiro andar,obviamente, mas ainda assim consegui colocar ela entre as duas máquinas de refrigerante do meu andar, coloquei o fio pela parede e passei fita preta por cima para camuflar. Sei que isso é estúpido, mas eu não tenho nada mais para fazer.

Bem, nada aconteceu. Me apoiei na porta da escadaria, mantive-me quieto, empurrei a pesada porta de metal e corri como nunca de volta ao meu quarto e tranquei a porta. Olhei a câmera em meu computador intensamente, vendo o corredor lá fora e boa parte da escadaria. Estou olhando agora mesmo. E não vejo nada interessante. Só gostaria que a posição da câmera fosse diferente, para poder ver a porta da frente. Ei! Alguém online!

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Consegui uma webcam mais velha e que não funciona muito bem, para falar com meu amigo online. Eu realmente não pude explicar a ele porque eu queria conversar com vídeo, mas eu me senti muito bem em ver o rosto de outra pessoa. Ele não pode falar por muito tempo, e também não falou nada com muito sentido, mas eu me senti muito melhor. Meu medo estranho quase passou. Eu me sentiria completamente melhor, mas havia algo de errado sobre essa conversa também. Eu sei que eu já disse que quase tudo pareceu bem estranho, mas, ele me pareceu muito vago nas respostas. Eu não consigo me lembrar uma coisa específica que ele disse... nem um nome, nem um lugar, ou evento... mas ele me pediu meu e-mail para manter contato. Espera, chegou um email.

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Vou sair agora, acabei de receber um email da Amy me chamando para comer no mesmo lugar de sempre. Eu amo pizza, e estou comendo comida aleatória da geladeira a dias, então mal posso esperar. De novo, me sinto ridículo por esses dias estranhos que tenho tido. Vou destruir esse diário assim que eu voltar. Ah, outro e-mail.

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Ah meu Deus, eu quase deixei o e-mail e abri a porta, eu quase abri a porta. Eu quase abri a porta, mas eu li o e-mail primeiro! Era de um amigo de que não ouvia falar a muito tempo, e tinha sido mandado a um enorme número de pessoas, que devem corresponder a todas as pessoas que ele tem salvo no e-mail dele. Não tinha assunto, e dizia, simplesmente:

"visto com os seus próprios olhos não confie neles eles"

Mas que diabos aquilo queria dizer? As palavras me assustaram, e eu me mantive lendo e relendo elas. É um e-mail desesperado enviado justamente quando... algo aconteceu? As palavras obviamente foram cortadas sem serem concluídas! Outro dia qualquer eu teria apagado considerando spam de vírus de computador ou algo assim mas, mas, as palavras... visto com seus próprios olhos! Não consigo para de ler e reler esse diário e olhar os últimos dias e perceber que eu não vejo outra pessoa com meus próprios olhos ou que tenha falado com outra pessoa cara a cara. A conversa na webcam com meu amigo foi tão estranha, tão vaga, tão... esquisita, agora que eu paro pra pensar nela. Foi esquisita? Ou é só o medo nublando minha memória? Minha mente brinca com a progressão dos eventos que tenho escrito aqui, apontando que eu não tenha vivido um fato sequer que não possa ser classificado como suspeito. O número errado que perguntou meu nome e a estranha ligação subsequente da Amy, o amigo que pediu meu email... Eu o chamei quando vi ele online! E então recebi um email em poucos minutos após a conversa! Meu deus! Aquela ligação com a Amy! Eu disse no telefone, eu disse que ela levaria meia hora para chegar aqui andando da Sétima Rua! Eles sabem que eu estou por perto! E se estiverem tentando me achar? Onde está todo mundo? Porque não vi nem ouvi ninguém mais nesses dias?

Não,  não, isso é loucura. Isso é com certeza loucura. Preciso me acalmar. Essa loucura precisa terminar.

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Não sei o que pensar. Corri pelo meu apartamento furioso, segurando meu celular para cima em cada canto, procurando sinal através das pesadas paredes. Finalmente, no pequeno banheiro, perto de um dos cantos do teto, tenho uma única barra. Segurando meu celular ali, mandei uma mensagem a todos os números na minha lista. Não esperando atrair nada além dos meus medos infundados, eu simplesmente mandei:

Você tem visto outro alguém cara a cara ultimamente?

Nesse ponto, eu simplesmente queria uma resposta. Não me importava o que quer que fosse a resposta, ou se eu me envergonhasse. Eu tentei ligar para alguém algumas vezes, mas eu não conseguia levantar minha cabeça tão alto até o ponto de sinal. E se eu abaixasse meu celular um centímetro sequer o sinal  acabava. Então me lembrei do computador. E me joguei nele, instantaneamente mandando mensagens para todos online. A maioria estavam inativos ou ausentes. Ninguém respondia. Minhas mensagens ficavam mais e mais frenéticas, e eu comecei a dizer as pessoas onde eu estava e pedir que elas viessem pessoalmente para uma conversa sem razões transitáveis. Não me importava com mais nada naquele momento, só precisava ver outra pessoa!

Eu também arrebentei meu apartamento procurando por algo que eu poderia ter me esquecido; algum meio de contatar outro ser humano sem abrir a porta. Sei que é louco, sei que é sem fundamento,mas e se? E SE? Só preciso ter certeza! Colei o celular no teto com fita, só por garantia.

Terça-Feira

O celular tocou! Exausto da minha noite de fúria, devo ter pego no sono. Acordei com o celular tocando, e corri para o  banheiro,  subi no vaso e abri o telefone fitado no teto. Era Amy, e eu me senti tão melhor. Ela realmente estava preocupada comigo, e aparentemente ela esteve tentando me contratar desde a última vez que nos falamos. Ela está vindo aqui, e, sim, ela sabe onde eu moro sem ter que me perguntar. Me sinto tão envergonhado... Definitivamente vou jogar esse diário fora antes que qualquer um veja ele. Eu sequer contei a alguém que estou escrevendo ele. Talvez só por ser a única comunicação que tenho tido desde... Deus sabe quando. Eu estou horrível, também. Me olhei no espelho antes de voltar aqui. Meus olhos estão fundos, minha barba está mais espessa, e eu simplesmente não pareço saudável.

Meu apartamento está um lixo, mas eu não vou limpá-lo. Preciso que mais alguém veja pelo o que eu tenho passado. Esses últimos dias NÃO tem sido normais. Eu não sou do tipo que imagino coisas. Eu sei que eu estou sendo vítima de extremas possibilidades. Provavelmente perdi a chance de ver outra pessoa uma dúzia de vezes. Só aconteceu deu sair no meio da noite e no meio do dia, quando todos tinham saído. Tudo está perfeitamente bem. Além do mais, encontrei algo no closet ontem a noite que tem me ajudado tremendamente: Uma televisão! Eu ajeitei ela antes de escrever isso, e ela está nos fundos. Televisões sempre foram uma escapatória para mim, e me lembram que ainda existe um mundo atrás dessas sujas paredes de tijolos.

Estou aliviado que Amy é a única que me respondeu depois da tentativa frenética de contratar todo mundo ontem a noite. Ela a anos é minha melhor amiga. Ela não sabe, mas, eu posso lembrar do dia em que nos conhecemos como um dos raros e únicos momentos de alegria verdadeira da minha vida. Eu me lembro do dia quente de sol. Parece uma outra realidade comparada a esse lugar escuro, sujo, sozinho e chuvoso. Sinto como se tivesse passado dias sentado naquele parquinho, velho demais pra brincar, só falando com ela e andando fazendo nada mesmo. Eu ainda sinto como se pudesse voltar até aquele momento as vezes, e isso me lembra que esse lugar maldito não é tudo que existe... finalmente, uma batida na porta!

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Achei estranho não conseguir ver ela pela câmera que eu escondi entre as máquinas de refrigerante. Eu percebi que ela estava mal posicionada, como quando eu não podia ver a porta da frente. Eu deveria saber. Eu deveria saber! Depois da batida, eu gritei através da porta brincando que eu tinha escondido uma câmera entre as máquinas de refrigerante, porque estava envergonhado comigo mesmo de ter levado minha paranoia tão longe assim. Depois que fiz isso, eu vi a imagem dela andar pela câmera e olhar para ela. Ela sorriu e acenou.

"Ei!" ela disse para a câmera brilhantemente, dando uma olhada torta.

"É estranho, eu sei," eu disse no microfone acoplado no meu computador. "Eu tive uns dias bem estranhos."

"Deve ter tido," ela replicou. "Abre a porta, John."

"Ei, espera um minuto," eu disse a ela no microfone. "Me diga algo sobre nós, só pra provar que você é você mesmo."

Ela olhou estranho para a câmera.

"Ah, tudo bem," ela disse devagar, pensando. "Nós nos conhecemos aleatoriamente quando éramos grandes demais para estarmos no parquinho, certo?"

Suspirei fundo conforme a realidade voltava e o medo sumia. Deus, eu tenho sido ridículo. É claro que é a Amy! Aquele dia não estava em nem um outro lugar a não ser na minha memória. Eu nunca mencionei a ninguém, não por vergonha, mas pela sensação estranha da nostalgia secreta  e a esperança que esses dias voltassem. Se houvesse alguma força desconhecida tentando me enganar, como eu temia, não havia como ela saber sobre aquele dia.

"Haha, tudo bem, vou te explicar tudo," Eu disse a ela. "Espere ai."

Corri ao meu pequeno banheiro e concertei meu cabelo da melhor maneira que pude. Estava horrível, mas ela entenderia. Me esgueirando pela bagunça que eu mesmo inacreditavelmente fiz nesse lugar, andei até a porta. Coloquei minha mão na maçaneta e dei uma última olhada para a bagunça. Tão ridículo, eu pensei. Meus olhos passaram pela comida deixada pela metade no chão, a lata de lixo transbordando, e a cama que estava fora do lugar, que eu movi procurando por algo... Deus sabe o que. Eu quase me virei para a porta a abri ela, mas meus olhos caíram em uma última coisa: a velha webcam, a que eu usei para aquela esquisita e vaga conversa com meu amigo.

Sua silenciosa esfera negra perigosamente se moveu para o lado, e sua lente apontou para a mesa onde esse diário se encontrava. Um terror sem tamanho tomou conta de mim  quando percebi que algo poderia estar olhando através daquela câmera, e poderia ver o que eu escrevi sobre esses dias. Eu perguntei a ela sobre uma coisa sobre nós, e ela escolheu a única coisa no mundo todo que eu pensei que ele ou eles não saberiam... mas SABIAM! ELES SABIAM! PODIA ESTAR ME VIGIANDO O TEMPO TODO!

Não abri a porta. Gritei. Gritei no medo descontrolado. Derrubei a velha webcam no chão.A porta sacudiu, e a maçaneta girou. Mas eu não ouvia a voz de Amy do outro lado da porta. Era a porta do porão, feita para conter pancadas, muito resistente? Ou não era Amy do outro lado? O que poderia estar tentando entrar, se não fosse ela? Quem diabos estava lá fora? Eu vi em meu computador a imagem da webcam lá fora, e ouvir ela nos alto-falantes através do microfone lá de fora, mas era real? Como posso saber? Ela se foi agora - eu gritei e gritei por ajuda! Empilhei tudo do apartamento bloqueando a porta da frente.
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Sexta-feira

Ao menos eu acho que é Sexta. Eu quebrei tudo de eletrônico. Quebrei meu computador, fiz em pedacinhos. Cada coisa que poderia ser acessada por rede, ou pior, alterada, eu sou um programador, eu sei. Todo pedacinho de informação que eu dei desde que isso começou, meu nome, meu email, minha localização - nenhum desses teria saído se eu não tivesse dado eles. Tenho lido e relido tudo que escrevi. Tenho variado de frente para trás, alternando entre terror destrutivo e descrença onipotente. As vezes acredito absolutamente que alguma entidade fantasmagórica está totalmente dedicada a me fazer sair. Desde o início, com a ligação da Amy, ela tem efetivamente me chamado para abrir a porta e sair.

Continuo correndo por isso na minha cabeça. Um ponto de vista diz que eu tenho agido como um louco, e que tudo isso tem sido uma extrema convergência de probabilidades - nunca sair nas horas certas por pura sorte, nunca ver outra pessoa por pura chance, recebendo emails aleatórios e sem sentido de algum vírus na hora certa. E o outro ponto de vista diz que essa extrema convergência de probabilidades é a razão pela qual alguém ou alguma coisa lá fora não tenha me pego ainda. Sigo pensando: Nunca abri a janela no terceiro andar. Eu nunca abri a porta da frente. Até aquela incrivelmente estúpida manobra com a câmera escondida na qual eu corri direto para meu quarto me tranquei. Eu não tenho aberto-a desde que abri a porta de aço da frente e corri para cá. Seja lá o que for que esteja lá fora - se há algo lá fora - nunca fez uma aparição no prédio antes deu abrir a porta da frente. Talvez a razão para não estar no prédio é que ela estava lá fora pegando todo o resto das pessoas... E então esteve esperando, até eu trair minha existência ligando para Amy... uma ligação que não funcionou, até que me ligou e perguntou meu nome...

O terror literalmente tem tomado minha mente toda a vez que eu tento juntar os cacos desse pesadelo. O e-mail -curto, cortado - era de alguém tentando colocar algo para fora? Alguma voz amigável desesperadamente tentando avisar antes que ele viesse? Visto com seus próprios olhos, não acredite neles eles - exatamente o que eu tenho suspeitado. Pode ser um controle mestre sobre tudo que é eletrônico, praticando sua insinuosa enganação para me induzir a sair. Porque não pode entrar? Bateu na porta - deve ter alguma presença sólida... a porta... a imagem das portas no corredor lá em cima como monólitos guardiões volta a minha mente toda vez que tento traçar esse rastro de pensamentos. Se houvesse uma entidade fantasmagórica tentando fazer com que eu saísse, talvez não consiga atravessar portas. Sigo pensando em todos os filmes que eu vi e livros que eu li, tentando gerar alguma explicação para isso. Portas sempre foram um intenso material para a imaginação humana, sempre vistas como passagens ou portais de importância especial. Ou talvez a porta é simplesmente muito resistente? Eu sei que eu poderia arrombar qualquer uma das portas desse prédio, excetuando as pesadas do porão. Fora isso, a verdadeira pergunta é, quem é que pode me querer? Se quisesse só me matar, poderia fazer isso de muitas maneiras, incluindo me manter aqui até que eu morresse de fome. E se não quiser me matar? E se quiser fazer algo muito pior a mim? Deus, porque eu não posso fugir desse pesadelo?!

Uma batida na porta...

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Eu falei para as pessoas do outro lado da porta que eu preciso de um minuto pra pensar e sair. Eu realmente só estou escrevendo isso aqui para poder pensar no que fazer. Ao menos dessa vez eu ouvi suas vozes. Minha paranoia - e sim, eu reconheço que tenho sido paranoico - tem feito eu pensar de todos os modos possíveis que suas vozes são falsas, feitas eletronicamente. Podiam haver nada além de alto-falantes lá fora, simulando vozes humanas. Realmente levou três dias até eles virem falar comigo? Amy está lá fora com dois policiais e um psicanalista? Talvez tenha levado três dias para pensarem no que falar para mim - o psicanalista pode ser bem convincente, se eu decidisse pensar que isso tudo foi só um louco mal entendido, e não uma entidade fantasmagórica tentando me fazer abrir a porta.

O psicanalista tem uma voz mais velha, autoritária mais ainda assim preocupada. Eu gostei dela.  Estou desesperado para ver alguém com meus próprios olhos. Ele disse algo sobre cyber-psicose, e eu sou só mais um de uma epidemia nacional de milhares de pessoas tendo ataques de pânico engatilhados por alguma mensagem sugestiva, um email que receberam de algum jeito. Eu juro que ele disse: "recebeu de algum jeito". Eu acho que ele quer dizer espalhado pelo país inexplicavelmente, mas eu estou suspeitando fortemente que a entidade revelou algo, disse que eu sou parte de uma onda de comportamento, que um bom número de pessoas estão tendo o mesmo problema com os mesmos medos, mesmo  que nunca tenhamos nos  comunicado.

Isso claramente explica o estranho email sobre olhos que eu recebi.  Eu não peguei o e-mail gatilho original. Eu peguei um descendentes dele - meu amigo pode ter caído também, e tentou avisar a todos sobre o que ele sabia sobre seus medos paranoicos. Foi assim que o problema se espalhou, o psicanalista afirma. Eu posso ter espalhado também, com minhas mensagens. Uma dessas pessoas pode estar derretendo agora mesmo, após ser engatilhada pro algo que eu lhes enviei, que eles podem interpretar da maneira que quiserem, como quiserem, algo como "você tem visto alguém cara a cara ultimamente?" O psicanalista me disse que ele não queria "perder outro", e que pessoas como eu eram inteligentes, e isso é o que nos matava.Nós criávamos conexões tão bem que o fazíamos até onde elas não deveriam existir. Ele disse que é fácil cair em paranoia no nosso mundo acelerado, um lugar de constante mudança onde mais e mais nossa interação é simulada...

Tenho que dar algum crédito a ele. É uma bela explicação. Claramente explica tudo. Explica perfeitamente tudo, de fato. Tenho todas as razões para me esquecer desse medo de pesadelo sobre algo ou alguma consciência que vem tentado fazer com que eu abra a porta para que possa me capturar para algo horrível e ainda pior que a morte. Eu seria muito estúpido em me manter aqui até morrer de fome, depois dessa explicação, para despistar a entidade que pegou todos os outros. Seria estupidez acreditar nisso, após essa explicação, que eu seria um dos últimos ainda vivos num mundo vazio, me escondendo no vazio do meu quarto de porão, despistando alguma impensável entidade enganadora só por me negar a ser capturado. É uma explicação perfeita para toda e qualquer coisa estranha que eu tenha visto ou escutado, e eu tenho todos os motivos do mundo para deixar meus medos se esvaírem e abrir a porta.

É exatamente isso que eu não vou fazer.

Como posso ter certeza? Como posso saber o que é real e o que é enganação? Todas essas malditas coisas com seus fios e sinais que vem de fonte desconhecida! Não são reais, não posso ter certeza! Sinais através da câmera, vídeo falso, chamadas enganadoras no telefone, emails enganadores! Até a televisão, quebrada no chão - Como posso saber que ela é real? São só sinais, ondas, luzes...a porta! Estão arrombando a porta! Está tentando entrar! Que tipo insano de mecanismo eles poderiam estar usando para simular o som de homens atacando uma porta dura de madeira tão bem? Ao menos, eu finalmente vi com meus próprios olhos... não há nada mais com que eles possam me enganar, destruí todo o resto! Não podem enganar meus olhos, ou podem? Visto com seus próprios olhos não acredite neles eles... espera... aquela mensagem desesperada mandava eu confiar em meus olhos, ou me avisava para me preocupar com meus  olhos também? Ah meu Deus, qual a diferença entre a câmera e meus olhos? Ambos geram luz com sinais de eletricidade - são a mesma coisa! Não posso ser enganado! Tenho que ter certeza! Tenho que ter certeza!

Data desconhecida

Calmamente pedi por papel e caneta, dia após dia, até que finalmente me deram. Não que isso importe. O que vou fazer? Arrancar meus olhos fora? As amarras se parecem parte de mim agora; A dor se foi. Percebi que essa é uma das minhas últimas chances de escrever legivelmente, uma vez que, sem minha visão para corrigir erros, minhas mãos vão lentamente escrever os movimentos envolvidos na escrita. É um tipo de autoindulgência, essa escrita... é um relíquia  de outro tempo, pois certamente todos lá fora estão mortos... ou algo bem pior.

Sento contra a parede acolchoada dia após dia. A entidade me trás comida e água. Se mascara como enfermeiras bondosas, como um doutor sem carisma. Acho que sabe que minha audição melhorou bastante, agora que vivo na escuridão. Finge conversas nos corredores, com a chance  de que eu escute. Uma das enfermeiras fala sobre engravidar logo. Um dos médicos perdeu sua esposa em um acidente de carro. Nada disso importa. Nada disso é real. Nada me convence. Exceto ela.

Essa é a pior parte, a parte que eu mal posso aguentar. A coisa vem até mim, mascarada como Amy. A recriação é perfeita. Soa perfeitamente como Amy, tem o mesmo cheiro que Amy, e até produz uma considerável reprodução do som único do seu sorriso com risadinha entre as lágrimas nas bochechas cheias de vida. Quando primeiro veio a mim, me disse tudo que eu queria ouvir. Disse que me amava, que sempre me amou, que ia entender o porque eu fiz tudo isso, que ainda poderíamos ter uma vida juntos, se eu simplesmente parasse de insistir que havia algo me enganando. Ela gostaria que eu acreditasse... não, ela precisava que acreditasse que ela era real.

Quase caí nessa. Realmente, quase caí. Duvidei de mim mesmo por um bom tempo. No fim, de qualquer jeito, era tudo muito perfeito, tudo muito impecável, muito real. A Amy falsa vinha todo dia, então toda semana, até parar de vir finalmente... mas não acho que a entidade vá desistir. Acho que ela só está esperando com mais truques na manga. Vou resistir até o fim da minha vida,  se preciso. Não sei o que aconteceu com o resto do mundo, mas eu sei que essa coisa precisa que eu caia em suas enganações. Precisa disso, então talvez, só talvez, eu seja um empecilho em sua empreitada. Talvez Amy ainda esteja viva por ai em algum lugar, viva ainda só por minha determinação em resistir ao enganador. Me mantenho preso a essa esperança, me balançando para frente e para trás na minha cela para passar o tempo. Nunca vou desistir. Nunca vou me quebrar.  Eu... eu sou um herói!

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O doutor leu o papel no qual o paciente havia rabiscado. Era quase ilegível, escrito em uma escrita torta a desigual de alguém que não podia enxergar. Ele gostaria de sorrir para o homem, um lembrete da vontade humana de sobreviver, mas ele sabia que o paciente estava completamente desiludido.

Além do mais, um homem são teria caído a enganação a muito tempo atrás.

O doutor gostaria de sorrir. Gostaria de sussurrar palavras de encorajamento ao homem desiludido. Ele gostaria de gritar, mas os filamentos de nervo enrolados em sua cabeça e em seus olhos fizeram ele fazer o oposto. Seu corpo andou até a cela como um boneco, e ele disse ao paciente, outra vez, que ele estava errado, e que não havia ninguém tentando enganá-lo.